A (falsa) consciência de classe

Classe dominante 3

Seguidamente uma questão se põe às mentes mais inquietas: sendo a maioria dos eleitores assalariados ou desempregados, como são eleitos deputados e senadores comprometidos com o  sistema de acumulação de capital (mais valia) e de exclusão social (“exército de reserva”)? Afinal, o eleitor, em sua grande maioria ligado ao mundo do trabalho, não tem qualquer consciência de classe, ao ponto de depositar o seu voto no representante de quem lhe explora?

No episódio do golpe parlamentar que depôs a presidenta Dilma Rousseff, muitos assalariados – e, portanto, não somente parcelas que integram a classe média e a quase totalidade da classe dominante – apoiaram a ruptura democrática e, via de consequência, deram lastro à alçada ao poder do bloco político que desarticulou a legislação trabalhista, entregou o pré-sal ao capital internacional, provocou desemprego e perdas salariais e, entre outras mazelas, recolocou o Brasil no mapa da fome. Sem falar em Lula preso, sem provas e sem decisão transitada em julgado!

Na obra “A Ideologia Alemã”, Karl Marx e Friedrich Engels aduziram que não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, é o seu ser social que determina a sua consciência. Estabeleceram, assim, a primazia da realidade em relação à consciência.

Os autores, na obra em agito, refutaram o pensamento idealista alemão (idealismo de Hegel, a filosofia dos Neo-Hegelianos e o Materialismo Abstrato de Feuerbach), segundo o qual a ideia universal precedeu à natureza e à vida social, servido de base para o seu desenvolvimento. Vale lembrar que, para o idealismo, em momento anterior à matéria – portanto independentemente dela -, já havia a ideia, antes do vivente já havia uma consciência externa de si mesmo, um fenômeno incorpóreo (de forma que o conhecimento e a consciência não são construídos na interação do homem com a natureza e com os seus, mas trata-se algo inato).

Marx e Engels, em sentido contrário ao idealismo, sustentam que não é o espírito humano, mas a atividade humana, o sujeito da história. Não são as ideias que criam o homem, mas o homem, agindo sobre a natureza na produção dos seus meios de subsistência – a produção da própria vida material -, é que forma o processo de pensamento (o conhecimento, a cultura, etc).

Nessa linha, segundo os dois filósofos, é equivocada a concepção segundo a qual o desenvolvimento da consciência (da ideia) precede ao desenvolvimento material. Ora, a vida orgânica não tinha consciência de si mesma (e do mundo) lá na sua origem. Primeiro os viventes se desenvolveram, as espécies evoluíram, ao ponto de a consciência surgir e se organizar. Marx e Engels afirmaram que o “espírito” tem consigo de antemão a maldição de estar “preso” à matéria.

Mas a concepção marxista vai mais longe ao concluir que o homem vive desde sempre em uma sociedade que o supera, de modo que o individuo se dobra ao social. Dessa forma, a pessoa humana, ainda que tomada em sua individualidade, é um ser social, porque inserido em relações com outras pessoas, sem o que sequer conseguiria sua reprodução material. Há uma completa rejeição ao solipsismo, portando.

O ser social, no conceito marxista, diferencia-se dos outros animais pela sua capacidade de transformar a própria natureza, de tal modo que ao transformá-la, vai transformando a si mesmo. O primeiro esforço humano e social foi a engendração das condições materiais para a sua sobrevivência, sem que isso tenha sido um ato consciente.

Na vida social, as condições materiais vão se modificando e, depois, ai sim muda também a forma como os homens pensam, sua concepção do mundo. Claro que a alteração do modo de ver o mundo também vai impactar a vida social (e as condições materiais), há aqui uma relação dialética, mas isso não permite colocar a carroça na frente dos bois, como fazem os idealistas.

Na obra em questão, Marx e Engels explicam que das relações do homem com a natureza, na produção dos seus meios de subsistência, surgem formas de organização social e a consciência correspondente. A cada estado de desenvolvimento das formas de produção material da sua existência – agora estamos na formação social e econômica capitalista – correspondem formas específicas de estruturação social, além de valores e maneiras de apreensão do mundo real (consciência).

Mas aqui retorna a questão posta lá no início: por que os trabalhadores não põe um fim nas condições de exploração à qual se submetem na formação social e econômica capitalista? Ora, sendo as condições materiais que ditam a consciência, porque a classe dominada não se dá conta da dominação, já que essa é a realidade material?

Marx e Engels já responderam essa questão na obra “A Ideologia Alemã”, ao afirmarem que:

“As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante”.

Como se vê, a classe proprietária dos meios de produção é também a que domina a superestrutura ideológica, política e jurídica, fazendo com que a exploração que ela exerce reste invisível, ao ponto de os explorados não a notarem.

O domínio de consciência é levado a efeito pela classe dominante através do seguinte estratagema: apresenta o seu interesse particular como o interesse de todos os membros da sociedade, criando assim uma falsa consciência. Um exemplo: a ideia de meritocracia como um critério justo, de interesse de todos.

Indiscutivelmente, nos dias atuais, a grande mídia empresarial cumpre papel fundamental para apresentar o interesse da classe dominante como um valor universal, útil a todo o corpo social.

Ainda em “A Ideologia Alemã”, Marx e Engels apresentam uma alternativa para contornar a dominação de consciência. Isso ocorre quando a classe em si, incapaz de realizar lutas políticas em favor da própria classe, rompe com as ideias dominantes e forma a consciência de classe para si. Os dois filósofos acreditavam que no terreno próprio da grande fábrica capitalista, no chão onde ocorre a dinâmica de acumulação do capital, em função da intensa exploração dos trabalhadores assalariados (mais valia), é local propício para aflorar as condições ao desenvolvimento de uma solidariedade de interesses de classe, dai surgindo a consciência de classe para si.

Notadamente, Marx e Engels sustentam nesse ponto a autoemancipação como única forma possível de libertação da classe oprimida, de modo que na ação coletiva emancipadora são alteradas as circunstâncias materiais e, em decorrência e de forma simultânea, a própria consciência. Estamos diante da chamada filosofia da praxis (na verdade, somente Antonio Gramsci, nos Cadernos do cárcere, é que vai empregar pela primeira vez a expressão “filosofia da práxis”). 

Agora já é possível responder à indagação proposta na abertura. Os explorados, a classe assalariada – e todo o mundo do trabalho – ainda não alcançaram uma consciência de classe para si, continuando subordinadas ao “poder espiritual dominante”.

Rosa Luxemburgo, na esteira do entendimento de Marx e Engels, mas numa visão mais política do que econômica, defendeu com vigor o papel central da experiência cotidiana da luta de classes na formação espontânea da consciência de classe. Afirmou ela em “Reforma ou revolução?”:

“Somente no curso […] de lutas demoradas e tenazes, poderá o proletariado chegar ao grau de maturidade política que lhe permita obter a vitória definitiva da revolução”

Digno de registro que Rosa Luxemburgo, brutalmente assassinada pelo grupo paramilitar Freikorps, não chegou a ter acesso ao que Marx e Engels desenvolveram na “A Ideologia Alemã”.

Mas deve-se esperar um processo “natural” de tomada de consciência?

Lenin (Vladimir Ilyich Ulyanov) abriu divergência em relação à visão naturalista de tomada de consciência, dizendo que os intelectuais deveriam auxiliar a classe trabalhadora alcançar uma consciência de classe e se organizar politicamente através de um partido político, formado por revolucionários, que por estarem distante do chão de fábrica, reuniriam melhores condições de compreender a sociedade burguesa e como enfrentá-la. Como se percebe, Lenin dá mais ênfase na atividade “esclarecedora” do partido do que na experiência de ação direta e autônoma dos trabalhadores.

Já Gramsci, mais adiante, vai falar na importância dos intelectuais orgânicos e na construção de um novo bloco histórico. Mas isso já é tema para outra crônica…

Atualização: com satisfação, colo abaixo o comentário do mestre Flávio Bettanin, postado no Face, na página do grupo de discussão política e teórica por ele criado, o Reflexões à Esquerda.

Comentário bera


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