
O pensamento liberal/conservar que nutre a extrema-direita e setores importantes da direita “mais moderada” sustenta que a existência de estamentos sociais, a opressão feminina, o racismo, a homofobia, a xenofobia, a violência, por exemplo, são fatos naturais, por isso inevitáveis e imutáveis.
Dentro dessa linha, o homem tem uma natureza egoísta, violenta e individualista (e só assim ele é livre). Aliás, são essas características que garantem a sobrevivência da humanidade (é um valor positivo, que merece ser conservado).
Por isso, não há como se opor à desigualdade e à opressão. E se houvesse como, não seria proveitoso, mas prejudicial. É a ladainha que se ouve.
Dando nome aos bois, o termo natural é empregado no contexto liberal/conservador como algo (i) originário, ou seja, inato, (ii) espontâneo, ou seja, sem artifício que modifique a natureza inata (metafísico, não admite a contradição e o movimento), e (iiI) bom, ou seja, moralmente aceito pela utilidade/resultado
Tudo bem, vamos partir da hipótese que as sociedades primitivas, lá na origem, de forma espontânea, organizaram-se numa linha verticalizada, donos dos meios de produção, sexistas e racistas na parte superior. Os de cima detinham poder hierárquico (econômico, político e cultural), mandavam nos de baixo.
Não estou dizendo que há indícios de que efetivamente assim foi nos primórdios, trata-se aqui de mero exercício mental, ponto de partida para rebater o argumento liberal/conservador.
Significa dizer que se na origem a sociedade se construiu verticalizada, isso explica e justifica que ela se mantenha até hoje assim, restando o conformismo? Não há meios materiais/objetivos e políticos/morais/subjetivos para se fazer movimentos de horizontalização, reduzindo progressivamente (ou num salto) as várias configurações da desigualdade?
Penso que é possível derrubar aquela linha vertical. Se não derrubar, chegar a um ângulo de agudo a quase nulo.
Uma eventual refutação plena é desgrudada da realidade.
No entanto, mais igualdade requer mais cooperação.
Ainda que se diga que a cooperação e a igualdade não são comportamentos inatos, podem e são aprendidos pelos humanos. São artifícios culturais, benéficos para todos!
As inovações tecnológicas são artifícios humanos. Resultam do domínio, pelo homem, de leis naturais (Física, por exemplo), mas não são fatos/atos naturais. Ainda que maculado pelo vício da não naturalidade, a humanidade não teria chegado até aqui sem o avanço tecnológico.
Então, mesmo que se admita que a desigualdade é natural, ainda assim é possível, em termos objetivos e subjetivos, criar artificialmente a igualdade, moldar um mundo mais aprazível para a grande maioria.
Claro que todo movimento de mudança tendente à horizontalização reclama combatividade e tática, certo que recebe forte reação de boa parte daqueles que estão na fração superior da linha vertical, os beneficiários das desigualdades. São minoria numérica, mas têm poder e não brincam em serviço, partem com tudo para esmagar a rebeldia.