
José Mujica, ex-presidente do Uruguai e ícone da esquerda, recentemente falecido, escreveu que sua geração cometeu um erro ingênuo ao acreditar na mudança social como combate ao modo de produção e distribuição de riquezas, desprezando o imenso papel no campo da cultura.
De fato, Mujica sustentou em mais de uma oportunidade que a luta principal a ser travada pela esquerda era apresentar ao mundo uma cultura alternativa de solidariedade, capaz de convencer as pessoas de seus benefícios em oposição à concepção estribada no egoísmo e no consumismo, vetores que sustentam a trama capitalista.
Para o uruguaio, a formação social e econômica capitalista não se trata apenas das relações de propriedade, mas de um conjunto de valores aceitos pela sociedade, principal força de coesão do sistema.
Mujica defendeu corajosamente que a luta cultural exige da esquerda um claro compromisso com áreas da vida que o capitalismo não valoriza, como viver somente com o necessário e não desperdiçar recursos mediante o acúmulo de objetos inúteis para se ter uma boa vida. Além disso, a cultura do consumismo não permite a mínima igualdade entre as pessoas, pregou o homem que se locomovia de “fusca”.
Se olharmos bem, o mestre Mujica rejeitou a visão do marxismo clássico sobre o socialismo como o resultado inevitável da necessidade histórica, pendendo mais para a linha de Rosa Luxemburgo de que se trata de uma escolha entre socialismo ou barbárie, como ponderou diversas vezes o também mestre Flávio Bettanin em reuniões do grupo Reflexões à Esquerda.
A pensadora judia polonesa, aliás, aduziu que a superação do capitalismo é uma triagem possível, não um resultado predeterminado por leis históricas e econômicas inflexíveis.
Tal como Luxemburgo, Mujica se afastou do determinismo econômico do marxismo dominante. Um fatalismo otimista com a crença de que, no final, aconteça o que acontecer, tudo vai acabar bem porque o comunismo é inevitável (ciência ou utopia?).
Claro que nem Luxemburgo no passado, nem Mujica no presente (nem Gramsci entre eles), aderiram à compreensão articulada por Eduard Bernstein – e por tantos outros -, segundo a qual a luta pelo socialismo trata-se um dever da ética kantiana, um singelo desejo subjetivo do indivíduo, sem considerar as condicionantes da realidade objetiva, material.
Luxemburgo, por exemplo, sustentou em sua obra que a substituição do capitalismo pelo socialismo diz respeito a uma escolha (depende da consciência, da vontade, da ação humana – é aspecto cultural), mas uma escolha entre possibilidades objetivas (as opções disponíveis são aquelas vinculadas à realidade existente, aos limites do mundo material e do estágio de desenvolvimento).
Dito de outro modo, para Luxemburgo o socialismo não é inevitável, mas nem por isso deixa de resultar de uma das possibilidades do desenvolvimento histórico. É uma escolha, mas não se reduz a uma escolha exclusivamente moral ou ética (idealista), desconectada do mundo material.
De certo modo, segundo entendo, o ensinamento do mestre Mujica se situa nessa tradição generosa e libertária, de que o futuro da humanidade não é um fatalismo, mas uma escolha, um artifício/construto cultural que (i) opta por uma formação social e econômica solidária, em que todas as pessoas têm acesso ao (e se contentam com o) básico para alimentar o corpo e o intelecto, ou (ii) elege uma entre outras formas tendentes à barbárie (já vivida, em termos), em que alguns acumulam riqueza e bens (supérfluos) e a grande maioria sobrevive com as sobras, a miséria, a tristeza, a violência, o desespero e, inclusive, a morte antecipada.
A luta política em favor da humanidade, assim, é pelo convencimento das pessoas, conquistar almas e corações para uma economia e modo de vida solidários. Uma epopeia cultural, como descreveu Mujica.
P.S.: a extrema-direita já entendeu onde se deve dar a disputa.