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NOTAS SOBRE POLÍTICA E CIDADANIA

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Por Guiomar Terra Batú dos Santos

Amanhece. Manto enrolado na cabeça, abro a janela… A covardia do sol permite o livre passeio do minuano, da garoa gelada. Anteontem três graus centígrados, ontem 2 graus e hoje, apenas um grau. Nos olhares de mútua cumplicidade das pessoas, a silenciosa interrogação – que é isso? Onde vai para esta invernia?

Ah!… A reflexão que nunca me dá tréguas se instala em mim em irredutível provocação. Sei. Foi-se o calor do verão. O vento varreu as vermelhas folhas do outono e as ilusões. O tempo de espera quer substituir a esperança. Quem me dera não desmaiem minhas utopias como desmaiam as plantas gemendo de frio.

As crianças passam para a escola em alarido costumeiro, boca fumegando, nariz vermelho escorrendo, mãozinhas geladas. Mesmo assim, bem melhor que aquelas lá longe, entre invernos e verões, feridas, famintas.

Acendo o fogo na lareira. Mesmo assim, meu cachorro continua a tremer de frio; em pedido de socorro, com força, consegue empurrar a poltrona onde me sento para escrever. Compadeço-me e, imediatamente, construo uma roupa para ele. Visto o Maximiliano – Max para os íntimos – que me olha agradecido.

Detenho-me a observar as chamas na lareira e lembro que nossos antepassados, os indígenas, em volta às fogueiras – rodas de fogo, aqueciam-se e aqueciam as ideias, dialogavam, tomavam decisões coletivamente, ensinavam ética, respeito à mãe natureza, preservação de sua cultura. Hoje, em volta às labaredas da lareira é o lugar do silêncio. Movimentos raros nas bocas. Quando uma pergunta surge, dificilmente uma resposta se ouve. O único movimento é das mãos nos celulares. É mais cômodo tornar os ausentes presentes e os presentes ausentes.

Lá fora, sei que as ovelhinhas, mesmo cobertas de lã, padecem. Os porquinhos se amontoam para se aquecerem mutuamente. A gadaria abandona coxilhas e colinas para proteger-se nos matos e baixadas. Os pintinhos se refugiam sob a galinha, mãe acolhedora.

As nuvens galopam e o céu vai abrindo-se aos poucos. Vê-se a lua buscar a companhia das estrelas, enquanto humanos dormem ao relento.

Abrem-se as cortinas do dia. Abro as cortinas da janela. A garoa cessa. A cerração baixa. O fio de luz, à frente de minha casa, é um colar de contas de cristal. Nele, pombo e pomba pousam seus pesinhos. Sacodem a plumagem e secam-se. O pombo, elegante, começa o cortejo à pomba, fazendo-lhe carinhos com o bico. A pombinha faz-se de rogada. Depois de repetido cortejo, o pombo salta sobre ela. É a vida que se reinicia em pura poesia.

Encorajo-me. Abro a porta e olho o jardim. Extasiada, vejo um cacho de resistentes rosas rubras, pura púrpura, verdadeiro veludo, que não se aniquilaram sob as agruras do tempo e, ali, enfrentam o frio para enfeitar a vida, pois depois da invernia, sempre virá a primavera e, com ela, o cio da terra, para que tudo rebrote.

Eis que a espera será, então, substituída pela esperança, que sempre há de brotar no coração, dourar os dias, diminuir as noites longas, chamar as cigarras e suas cantilenas.

Guiomar Terra Batú dos Santos

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