A dialética do movimento dos caminhoneiros e o papel da esquerda

Luta de classes

O movimento dos caminhoneiros se revela dialético na medida em que, sob o ponto de vista da luta de classes, contem demãos, camadas que se apresentam em díade. Com efeito, os “rebeldes” são formados por caminhoneiros assalariados, autônomos e, ainda, por patrões (que agem mais na penumbra). Tem greve, mas tem, sobremaneira, locaute (o que demonstra o seguinte:a burguesia ainda não perdeu por completo sua função revolucionária nos limites do capitalismo). Os grevistas lutam pela sobrevivência, os do locaute em defesa da (manutenção da) acumulação.

A bandeira principal defendida – o combate ao preço elevado do óleo diesel – não é imediatamente universal, atende somente aos integrantes do movimento, mas mediatamente interessa ao conjunto da sociedade por conta da influência do custo do transporte de produtos e pessoas, o que atinge a todos indistintamente. E aí reside um sentido de justiça, de luta por igualdade, valores que animam a esquerda.

Nas redes sociais e nas rodas de conversas, os interlocutores à esquerda revelam desconfiança com os “rebeldes dos combustíveis”. Têm dificuldade de granjear qualquer tipo de simpatia com o movimento, sendo que somente alguns poucos defendem a adesão à causa.

Tenho para mim, num primeiro sentimento, que abraçar por completo o movimento vai tencionar contradições irremediáveis para a esquerda. Como referido acima, a bandeira principal dos caminhoneiros é o alto preço dos combustíveis, havendo nessa luta um sentido de justiça. Mas há na pauta bandeiras secundárias retrógradas, como o apoio ao retorno dos militares ao governo (uma espécie de golpe no golpe), e o combate à corrupção descolado de qualquer discussão política mais profunda (imperando o discurso demagógico da lava jato contra a Petrobras). Também o movimento se recusa a fazer uma reflexão mais profunda sobre as razões da política de preços dos combustíveis praticada pelo governo brasileiro – e como essa quadrilha de saqueadores, chefiada por Temer, instalou-se em Brasília.

Além disso, não se pode ignorar os fatos passados, a História, sob pena de dupla penalização pela força da repetição dos acontecimentos – o loop histórico, que vem primeiro como farsa, depois como tragédia (Marx). O mesmo movimento de caminhoneiros pediu a deposição da presidenta Dilma – e, via de consequência – fragilizou a democracia brasileira e, indiretamente, colaborou com a atual política de preços de combustíveis e derivados.

Se a mera adesão é equivoco, a pronta e completa rejeição é posição a ser contornada, porque aí a esquerda vai negar a si mesma. Ora, se é possível avistar uma bandeira justa, a esquerda tem de estar lá para levantá-la – ou pelo menos para emprestar solidariedade a quem a sustenta!

Quando a esquerda brasileira silencia, os liberais e conservadores tupiniquins reafirmam sua hegemonia e, por isso mesmo, sua dominação econômica e política. Vácuo permite ocupação, de modo que recusar a luta não é opção.

Falando em peleia, volto à luta de classes. Fora de qualquer impugnação, a hegemonia ideológica do movimento é da patronal (com apoio de outras frações patronais), nesse aspecto há locaute e não greve. No entanto, considerável fração destes caminhoneiros não pertence à classe patronal (a ela se submete, mas não a integra), de modo que materialmente o movimento é mais grevista que locaute. Vê-se aqui uma ausência de consciência de classe, um desajuste entre a situação material do sujeito e o seu “espírito”, seu ânimo, sua percepção de mundo e de realidade – uma alienação.

Qual o papel da esquerda nesse “latifúndio”? Ora, considerada a luta de classes, uma das funções da esquerda é despertar a consciência de classe dos envolvidos. No caso, atiçar em caminhoneiros assalariados e autônomos (e até em microempresários dos transportes) um sentimento de classe social e real condição econômica, politizando o embate, tencionando contradições.

Temos de fazer “guerra de posição”, não “guerra de movimento”. Com lecionou Gramsci, “a sociedade civil tornou-se uma estrutura muito complexa e resistente as irrupções catastróficas do elemento econômico imediato (crises, depressões, etc.): as superestruturas da sociedade civil são como sistema de trincheiras na guerra moderna”. Ali o exercício normal da hegemonia é caracterizado “por uma combinação da força e do consentimento que formam equilíbrios variados, nos quais jamais a força predomina muito sobre o consentimento”.

Na busca do “consentimento”, considerando a trincheira cavada pelo protesto dos caminhoneiros, a tarefa que se põe à esquerda, segundo penso, é envolver o conjunto de assalariados, de excluídos e das camadas médias que não são proprietárias dos meios de produção para defender, como pauta comum, o petróleo e a Petrobras como ativos que pertencem ao povo brasileiro, bem como uma política de preços de combustíveis (dentre eles o gás de cozinha) que possibilite o acesso de seu consumo pelo conjunto das famílias.

Enfim, são considerações iniciais que elaboro para aprofundar a discussão.

Encerrado: FORA TEMER, LULA LIVRE e VIDA LONGA À ESQUERDA!

(Texto sem qualquer revisão)


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