Lula, Lula ou… Lula

Luiz Inácio Lula da Silva durante evento do PT em Brasília. - Brasília(DF), 24/04/2017

Neste últimos dias, tenho acompanhado diversas manifestações na “mídia alternativa” – e também em redes sociais – defendendo que o ex-Presidente Lula desista de sua candidatura e passe a apoiar Ciro Gomes. Agora que o “centrão” vai aderindo à candidatura do tucano Geraldo Alckmin (ver aqui), a pressão sobre o PT só vai aumentar.

Um exemplo do tensionamento para Lula indicar de imediato um “sucessor”, de preferência Ciro Gomes (PDT), é o texto escrito pelo jornalista Luis Nassif, com o título “O Xadrez da aposta de Lula” (ver aqui).

O que está em pauta na postagem – e nos comentários feitos – não é a elaboração de eventual unidade ampla do campo de esquerda (talvez fosse mais correto falar de centro-esquerda, senão não é ampla), mas a busca de apoio de Lula (de perfil conciliador e de centro-esquerda, que atrai em seu entorno a esquerda latu senso) ao Ciro Gomes (de perfil pouco conciliador e centro-esquerda, que gravita em torno do centro – não confundir com o termo pejorativo “centrão”).

Hoje, no Brasil, não temos uma liderança pessoal ou coletiva – salvo o próprio Lula – que tenha capacidade para capitanear a construção de uma frente ampla de (centro) esquerda que seja digna desse nome. O PT, de certo modo, já é uma frente de centro esquerda – tem em seus quadros políticos/militantes de centro (liberais iluministas), de centro-esquerda (social-democratas que defendem o Estado Democrático de Direito) e de esquerda (anticapitalistas, que sustentam a criação de uma nova formação social e econômica para além do capitalismo), cuja unidade passa pelo traquejo de Lula.

Se Ciro Gomes reunisse condições para liderar espontaneamente uma frente ampla “vermelha”, já o teria feito, ainda que sem o PT (envolvendo os demais partidos de centro-esquerda e esquerda). Não é capaz e sequer deseja isso por questões táticas. Suas convicções ideológicas e trânsito político têm comunicação mais ao centro…

Ainda que Ciro pretendesse capitanear uma frente ampla de esquerda, parece que somente o PCdoB estaria disposto a embarcar nesta nau, pelo menos agora num primeiro turno. E aí a “amplitude” restaria prejudicada.

De qualquer sorte, sem Lula, não há votos em quantidade suficiente para uma vitória eleitoral pelo campo progressista – e nem apoio da grande maioria dos movimentos sociais e sindical!

Notem: não é a centro-esquerda e a esquerda (como forças políticas organizadas) que titulam os votos de parcela significativa da população brasileira (suas bandeiras aceitas por boa fração do eleitorado), é o Lula. Para bem e para mal. Aliás, isso facilitou, em boa medida, o trabalho do arco conservador, bastando “marcar” Lula para anular a única jogada forte do time! Por isso Lula foi jogado no cárcere, ao arrepio da lei e dos procedimentos.

Lula – e o que ele representa no acúmulo de sua trajetória pessoal – é o único vetor com força para romper – ainda que em espasmos próprios de episódios eleitorais – com a hegemonia política construída pela classe dominante através de seus aparelhos de reprodução ideológica, entre os quais a grande mídia empresarial, a escola “sem partido” e setores do Poder Judiciário.

O PT aposta que Lula, com sua capacidade contra-hegemónica, apoio popular e com o STF mantendo sua jurisprudência, irá “desmarcar-se” e voltar a ser  um jogador decisivo.

É aposta de alto risco, mas legítima sob o ponto de vista político.

Se a tática falhar, não há reserva à altura para substituir Lula. Não se constrói uma alternativa em poucos meses, isso é trabalho de anos, histórico. Dilma foi uma exceção.

Outro elemento a ser considerado: a simples adesão do Lula ao Ciro não significa transferência imediata de votos – ele está preso e proibido de falar diretamente com o povo, mobilizá-lo. O mesmo vale para a hipótese de Lula indicar um substituto dentro do PT.

Por isso, como leciona Aldo Fornazieri, é “Lula ou Lula” (ver aqui). Não é o ideal (no sentido que se Lula for impedido de concorrer, não há alternativa do “mesmo porte”, o PT é menor do que o Lula), o dever-ser. Nem o suficiente. Mas assim é, até que tal realidade seja modificada, que a esquerda se transforme em sujeito coletivo forte (até porque Lula não é eterno).


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