
Retorno ao “Bilhetes”. Depois de quase meio ano de ausência.
Não tenho escrito diante da impaciência generalizada das pessoas para ler “textão”. Depois da terceira ou quarta linha, vem a distração.
Claro, escritores talentosos prendem a atenção dos leitores. Não é o meu caso. Estou entre os medíocres.
Além disso, a distribuição das crônicas de blogs “artesanais” em redes sociais é muito difícil, os algoritmos privilegiam outras formas de comunicação e requerem engajamento prévio ou pagamento.
Tenho escrito algo em outros lugares. Meu trabalho requer que escreva todo dia. Mas nos limites do padrão jurídico e de acordo com a demanda. Sem liberdade. Não há imunidade no labor remunerado, há mediações, submissões e constrangimentos.
Assim, escrever sobre política, para mim, fica restrito às redes sociais. Terreno de palavras escassas, sínteses. Resumo do resumo. E de mal-entendidos frequentes.
Hipoteticamente, restaria o audiovisual, com mais espaço, mas essa mídia requer habilidades que não tenho.
Aliás, falando em audiovisual, hoje pela manhã “cai” num vídeo na internet com conteúdo místico.
Não fiquei surpreso com a mensagem sobrenatural da influenciadora digital, sou um cético tolerante com as pessoas de fé, desde que de boa-fé. O que me chamou a atenção foram os comentários vinculados ao vídeo. A imensa maioria da audiência, ainda que assumindo crenças religiosas e valores espirituais, não entendeu o que foi dito.
No caso, a influenciadora mística defendeu a posição de que os sinais por ela recebidos apontavam para a chegada do fim dos tempos. E até aqui, todos entenderam, acho.
Mas a escatologia apresentada pela influenciadora era “do bem”, sem remessa para uma distopia. Segundo o vídeo, tanto o fim dos tempos, como o que lhe sucede, não trarão dor e sofrimento para a humanidade, tratando-se, na verdade, de portal para um novo e superior entendimento místico.
Majoritariamente, os comentaristas concordam com a proximidade do fim do mundo. Porém, em sentido contrário à profecia benevolente, afirmam o desastre climático que atingiu o Rio Grande do Sul como evidência do evento apocalíptico que se aproxima e da necessária danação humana, com muita dor e sofrimento, um castigo necessário e merecido.
De acordo com as manifestações em resposta ao vídeo, os asseclas do fim do mundo infernal não abrem mão de um desfecho aterrorizante e “com méritos”, mas para os outros. Um castigo divino pelo não cumprimento de regras sagradas dadas pelo seu Deus amoroso (?!).
Bom, não quero discutir aqui o fenômeno do negacionismo, nem os credos envolvidos, suas incoerências internas e a inadequação com o mundo material e com a ciência. Foco na incapacidade cognitiva de se entender uma crença em razão de outra crença.
Os comentaristas, convictos num necessário encerramento trágico e causado por atos pecaminosos, fecharam-se cognitivamente ao ponto de recusar entender a extensão e teor da visão mística divulgada no vídeo.
Entender, sinalo, não significa “estar de acordo”, mas “compreender o sentido”, o conteúdo da mensagem, do que foi dito, até para refutar. Não há como criticar um fato/ato (ainda que produto de uma fantasia) ou uma ideia/abstração sobre um fato/ato sem entendê-lo minimamente, saber do que se trata.
Pior do que falar sobre o fato/ato sem estudá-lo é propagar ou refutar uma ideia/abstração por erro de conhecimento.
Há uma grave crise cognitiva instalada, produto de um visão resumida do mundo.
Para conhecer o objeto, tem de ter curiosidade.
Esse comportamento de bloqueio cognitivo é muito comum nas redes sociais. Tal fragilidade na capacidade de “conhecer o objeto”, de instigar a curiosidade, serve de fertilizante para as fake news e extrema-direita.