Fui criado entre o campo e a cidade.
Meu finado pai, Leonardo, era agricultor, plantava e criava no interior de Santo Antônio das Missões (RS), nas localidades de São José e Passo Novo.

Na primeira imagem acima, o açude e a capão de árvores nativas engendrados pelo meu pai. Espero que o matinho funcione como lar de bugios e de outros animais, sem receber visitas de motosserras! A casa, os galpões, o chiqueiro, o galinheiro e outros equipamentos já não existem, foram descontinuados, trinta anos se passaram.
Na imagem logo abaixo, aparece o Icamaquã. As marcações em vermelho permitem identificar a localização da outrora moradia em relação ao velho rio.

Aos finais de semana e nas férias escolares, acompanhava meu pai, inclusive em pescarias no Rio Icamaquã. Depois, na adolescência, abandonei meus estudos e fui trabalhar com ele na lavoura, até a sua morte, foi-se jovem, aos 45 anos, eu com 16.
Quando criança, de manhã bem cedo, dentro do galpão ou acampado próximo ao rio Icamaquã, observava meu pai aquecendo a água para o chimarrão.
Na minha perspectiva infantojuvenil e, ainda, de acordo com a minha realidade social, a elevação da temperatura da água e o vapor saindo pelo bico da chaleira era um processo mágico, operado por forças sobrenaturais e inexplicáveis.
Compreensível. Vivia numa bolha fantástica, em que o mundo tinha sido criado em seis dias por uma entidade sobrenatural, havia coelhos da Páscoa, deveria tomar cuidado na rua, porque pessoas más sequestravam crianças desacompanhas, jogando-as numa kombi branca, e, no final do ano, como recompensa pelo bom comportamento, receberia presentes natalinos do Papai Noel.
Certa feita meu pai se fantasiou de bom velhinho e eu percebi, pelo timbre da voz, quem era. Possivelmente, naquele momento tomei meu primeiro “choque” de realidade. Os presentes vinham do meu pai e não do Polo Norte!
Voltando à chaleira no fogo de chão, somente mais adiante, com minha professora de Ciências (que bom ter professores!), descobri que a água dentro do recipiente aquecia por meio de convecção térmica (e a fonte primária do aquecimento era a agitação dos elétrons em razão da oxidação de combustível, o fogo, que causava a agitação dos elétrons da base da chaleira). Já o fenômeno da ebulição era o responsável pelos vapores, com a mudança do estado físico da água. Nada de mágico, somente processos naturais, químicos e físicos, mensuráveis.
Em se tratando de políticas públicas, há uma relação benéfica direta entre o abandono da bolha do fantástico e o crédito concedido à ciência.
É o caso da segurança pública em São Paulo (e no Brasil) e a escalada da violência policial.
Nos últimos dias, as redes sociais e a mídia repercutem casos graves de violência policial, como o do estudante de medicina morto sem oferecer resistência, o do jovem negro executado pelas costas com vários tiros após furtar um mercado, do homem jogado de uma ponte durante uma abordagem e, ainda, da idosa de 63 anos que foi agredida dentro de sua casa por agentes da lei.
Há uma reprodução em São Paulo do que já acorreu entre 2019 e 2020. E, como lecionou Marx, a repetição já não é só tragédia, tem uma farsa embutida.
Em 2021, diante da escalada da letalidade policial, cujo episódio marcante foi o Massacre de Paraisópolis em final de 2019, com a morte de nove jovens, o então Governador Dória, pressionado, resolveu adotar, a contragosto, o sistema de câmeras operacionais portáteis, que gravam a rotina de trabalho dos profissionais de segurança.
A partir disso, a ciência novamente entrou em ação. Foram feitas pesquisas para entender o impacto do uso das câmaras na violência policial.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em pesquisa comparativa de dados, apontou queda de 76% nos casos de mortes decorrentes da intervenção policial nas unidades que fizeram uso das câmeras.
Já o Instituto Sou da Paz, em sua pesquisa, percebeu um recuo de 58% na letalidade policial contra jovens de 15 a 19 anos.
Por sua vez, pesquisa realizada pelo Centro de Ciência Aplicada em Segurança Pública da Fundação Getúlio Vargas revelou que o uso das câmaras permitiu uma diminuição de 63% nos casos de lesões corporais causadas por policiais em serviço.
Esses dados estão disponíveis em sites na net, como no Fonte Segura .
Em resumo, as evidências trazidas pela ciência apontam que o uso de câmeras operacionais portáteis traz efeitos positivos na política de controle do uso da força, reduzindo a letalidade policial.
Mas o que fez o Governador Tarcísio de Freitas, tão festejado na Faria Lima?
Negou a ciência, boicotou o uso de câmaras. Ficou na sua bolha, no seu mundo fantástico, onde a norma ética máxima se traduz em “bandido bom é bandido morto”. Um delírio da classe dominante segundo o qual a violência policial vai trazer segurança à população.
Mas Tarcísio fez mais. Optou pela sua cloroquina e nomeou como secretário de segurança pública de São Paulo o Guilherme Derrite, um matador, que nem a violenta Rota suportou!
Conforme noticiado pela mídia, Derrite tem orgulho de ser violento e matar pessoas. Foi ele quem disse:
– Eu fui afastado da Rota porque matei muita gente, matei muito bandido!
Tarcísio negou a ciência e optou pela farsa ofertada pela extrema-direita.
E agora perdeu o controle!
Quem colhe as consequências, melhor, os cassetetes e as balas no lombo, são os pobres e negros.
E é uma ilusão pensar que em outros Estados da Federação a segurança pública se pauta pela ciência e não pelo populismo, salvo exceções.
O governo Lula se comprometeu em colocar equipamento nos uniformes da Polícia Rodoviária Federal, da Força Nacional de Segurança Pública e da Polícia Penal Federal, agora tem de por em prática.