Bolsonaro, capitalismo e o “efeito Eichmann”

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A filósofa Hannah Arendt, viva fosse, encontraria farto material para aprofundar seus estudos e, quiçá, fazer uma reedição ampliada do livro Eichmann em Jerusalém, colocando novo capítulo, intitulado “o novo Eichmann, o caso brasileiro”.

Para os que ainda não leram Eichmann em Jerusalém, faço um inofensivo spoiler. Na obra, Hannah Arendt aborda o desenrolar do julgamento de Otto Adolf Eichmann, agente nazista responsável por organizar o transporte de milhões de judeus (e outros) para campos de concentração. Eichmann foi capturado pelo serviço secreto israelita na Argentina em 1960, julgado em 1963.

Segundo observa Hannah Arendt, Eichmann não era “pervertido ou sádico”, mas “terrivelmente normal”. Não expressava convicções ideológicas antissemitas, motivos torpes ou propensão para condutas maléficas. Ele simplesmente cumpriu ordens superiores sem questioná-las, a fim de progredir na carreira por conta de seus méritos. Para Eichmann, em sua superficialidade, não havia sentido (sequer tinha capacidade para isso) questionar se suas ações violavam direitos humanos e impunham dor e sofrimento, o que importava era cumprir o seu dever, qual seja, concluir as tarefas que lhe eram determinadas. Um agir burocrático, portanto.

Aliás, Hannah Arendt sustenta que a maldade é, em si, um evento superficial (embora seus efeitos sejam radicais). Já evitar o mal exige profundidade, é necessário um esforço de pensamento, o que significa uma produção de conhecimento (um saber).

Como referiu Thomas White, citando assertiva de outro comentarista, Eichmann aproximou-se do Partido Nazista porque desejava ser portador de um propósito e de uma direção (superficialidade), não por firme convicção ideológica (profundidade).

A partir desses elementos, Hannah Arendt sustenta que um dos resultados da massificação da sociedade foi o surgimento de uma multidão que, de certo modo, ao negligenciar sua capacidade de fazer julgamentos morais, de se perguntar se suas ações causam malefícios terríveis a outras pessoas, conformou-se em remar no sentido da maré (cumprir ordens, ter uma direção para seguir, deixar-se levar), agindo ao final e ao cabo como Eichmann.

Hannah Arendt vai mais adiante: ao não confrontar o mal, ignorá-lo, a sociedade torna-o banal. Uma indiferença intelectual, de reflexão, que leva a uma indiferença de sensibilidade (moral). O mal (a violência do humano em desfavor dos humanos) é naturalizado e internalizado, de modo que não mais se identifica como um desvalor.

Para Arendt, a banalidade do mal, quando atinge grupos sociais, tem natureza política e ocupa o espaço institucional, aproveitando-se do vácuo do pensamento e, ainda, da naturalização da violência.

De certo modo, faço esse acréscimo, a formação social e econômica capitalista potencializa a banalidade do mal. Ignorar a luta de classes, a mais valia, as formas de exclusão social e de exploração do trabalho é comportamento tendente à banalização do mal, resultado de uma negativa (ou de uma impossibilidade) de refletir sobre a realidade material. A superficialidade…

Na atual quadra do capitalismo, há um conjunto de “consumidores” completamente anestesiados diante da violência. Ocupados em consumir (ou sonhar em consumir), têm para si poucos instrumentos (educação, cultura, etc) para entender as raízes da violência. A resposta que se consegue formular, a partir da articulação de quadros da classe dominante e dentro dos limites dos muros da superficialidade, não ultrapassa a aparente repressão da violência pela inserção de violências mais perversas, ainda que com a camuflagem de “políticas de segurança pública” e de “direito penal”. O mal é banalizado pelo mercado e pela institucionalidade.

Retomando. Grande parte da maioria do supostos eleitores de Jair Bolsonaro inserem-se nesse contexto revelado por Hannah Arendt. As promessas do “mito”, de alcançar a “solução final” para os problemas que afligem a população via mercado de armas, aniquilamento do Estado de Bem-estar Social, misoginia, homofobia e outras formas de intolerância dirigida às minorias, surfam nas ondas da banalização do mal e resultam de uma irreflexão ou de uma reflexão superficial (superficialidade que tem sua origem no pensamento limitado da classe dominante, tanto dos ideólogos do neoconservadorismo como dos pensadores do neoliberalismo, que se afastaram das diretrizes mais generosas  do iluminismo/ilustração).

Os simpatizantes de Bolsonaro – pelo menos uma boa fração deles – não são movidos necessariamente por forte convicção ideológica (uma visão sobre o Estado e sobre as relações de produção), mas porque, limitados e alimentados pela superficialidade de pensamento, identificam no “mito” o portador de um propósito, alguém que, com uma arma e um discurso que exorta a violência, o estranhamento e, por fim, a exclusão, aponta uma trilha a ser seguida, sem que isso exija um questionamento mais rigoroso sobre o conjunto superestrutural (regras de civilidade, moral, direitos civis, cultura, história, etc.) e, fundamentalmente, sobre a realidade material (qual o papel de cada um na produção social da riqueza).

Como é possível enfrentar a banalidade do mal representada por Bolsonaro sem cair na tentação de “fraquejar” (permitam um pouco de humor)? Não vejo outro caminho senão aquele que indica o bom combate à irreflexão e à superficialidade, o que se faz, entre outras ações, discutindo propostas, mobilizando pessoas, denunciando a violência, defendendo a dignidade humana (de todos – TODOS, SEM QUALQUER EXCEÇÃO! – humanos, inclusive daqueles que agem como Eichmann), debatendo relações de produção solidárias (economia solidária) e fortalecendo a democracia participativa.  

Claro que tudo fica mais difícil diante do golpe em curso, que culminou com a prisão do Lula e a violação de seus direito políticos. O golpe “com Supremo e tudo” nada mais é do que um efeito da banalidade do mal atingindo o sistema de justiça. Mas essa é a luta e a responsabilidade que o momento histórico reservou para a esquerda brasileira.

A propósito, “o novo Eichmann” a que me referi no início deste post não se reduz, notadamente, ao Bolsonaro e aos seus simpatizantes. Diante de uma realidade generalizada de banalização do mal, qualquer um de nós pode eventualmente agir sob o efeito “Eichmann”. Para tanto, basta um descuido, um agir burocrático, um “seguir ordens” sem questioná-las, uma insensibilidade em relação ao sofrimento dos outros viventes, uma acomodação à formação social e econômica capitalista…

bolsonaro-esterco1

(texto sem correção)


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