BILHETES

NOTAS SOBRE POLÍTICA E CIDADANIA

Por Flávio Bettanin

(…)

Marx, no tema sobre mercadoria, abertura do Capital, examinando valor de uso e valor de troca, defronta-se com o fator alienante, por isso denominou-o de fetichismo.

Então, volta-se aos seu estudos filosóficos de 1884 quando se refere a Feuerbach e sua crítica da religião. A fuga da realidade objetiva para uma entidade separada, fruto da subjetividade.

Essa ruptura alienante ele encontra também entre valor de uso e valor de troca. O primeiro que sua gênese na quantidade de trabalho social empregado na confecção da mercadoria atendendo o fator necessidade, e o segundo, característico do capitalismo, no âmbito da circulação, facilitada pelo dinheiro, estabelecendo uma singular relação entre as pessoas intervenientes no processo.

É nesse ponto que o valor de troca da mercadoria, despega-se do valor de uso, tornando a mercadoria um ente destituído de sua objetividade.

(…) os objetos produzidos para satisfazer necessidades, tornando-se mercadorias perdem a objetividade de origem assumindo nova, na verdade a que lhe será intrínseca, a de agregar fator subjetivo aos produtos para impulsionar a troca e a circulação.

Mas, vem a indagação, que importância tem para o nosso tempo o aponte do fetichismo da mercadoria?

Na geração do sistema capitalista, esse fator intrínseco agregado pela subjetividade dos produtores e consumidores, portanto na superestrutura do sistema, desenvolvia-se lentamente, porque diminuta a quantidade de produtores, da concorrência entre as empresas, e lento o desenvolvimento das forças produtivas e da ciência.

Mas, ao tempo de Marx em plena revolução industrial todos esses fatores se dinamizaram. E foram ao ápice da curva de ascensão do sistema capitalista com as segunda e terceiras e ganham formas fantasmagóricas na curva de descenso em era da digital e da robótica.

Tudo isso foi possível, entre outros, porque a forma estrutural do sistema carregou para sua superestrutura, campo da ideação, as formas fetichistas dada à mercadoria, tendo como efeito fenômeno de subjetividade coletiva tornando-a fruto de trabalho abstrato, afastado do caráter objetivo material do trabalho vivo ou do trabalho morto da maquinaria.

Para que se sinta palpável esse processo, diga-se que o dinheiro é a encarnação do trabalho abstrato não deixando transparecer nenhum conteúdo concreto, sendo absoluto o valor de troca, deixando o valor de uso esquecido.

As circunvalações da ideação na superestrutura do sistema geram estados de necessidade na mente dos consumidores, contando para isso com um aparato tecnológico fantástico para a dominação das consciências: cultura orientada pela poderosa indústria telemática, pela televisão, rádio, imprensa, cinema, ensino dirigido etc.

Defino essa engenhosa tática, como defesa desesperada de manutenção dos privilégios da classe dominante do sistema capitalista, ante às sucessiva crises – e esta que estamos vivendo que tudo demonstra ser a crise estrutural sistêmica final.

Quero terminar, lembrando da importante assertiva de Marx, selecionada nas conclusões de seus Estudos Econômicos e Filosóficos, nos quais definiu a ontologia do ser social, e posta no Prefácio à Crítica à Economia Política (O Capital): – Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é o que determina a sua consciência.

Essa frase suscitou muitas interpretações, como esta: o ser social que opera na sociedade capitalista, cuja classe dominante maneja a poderosa indústria cultural, não terá sua consciência totalmente determinada pela forma do fetichismo ideado pela classe proprietária, não deixando espaço para o contraditório?

Identifico que, respondendo a essa dúvida, levou Theodor Adorno, em Dialética do Esclarecimento, declarar que a consciência dos contemporâneos acabou por rejeitar semelhante idealismo.

E ele, mesmo assim, com discordantes, é ainda considerado importante filósofo marxista da Escola de Frankfurt.

Mas, penso eu que a aceitação sem alternativas da afirmação de Adorno, que resultaria em alienação irreversível, nos levaria, em tempo de derrocada do capitalismo, ao caos e a barbárie, ou, com a evidência do que estamos vivendo da destruição da natureza, à extinção da humanidade.

A alternativa, que não vejo outra adotada pelas lideranças da esquerda centradas na via eleitoral de busca de espaço no aparelho de Estado, deve ser encontrada, entre outras formas, na luta de classes, que são eternas, adequada ao nosso tempo, definida pela práxis, teoria e prática, como leme condutor.

Encerro esse texto, certo que contém equívocos, esperando que os amigos recebam com críticas rigorosas, mas, por motivos óbvios, benevolentes.

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