
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no final do ano passado, propôs o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples. O referido pacto almeja conscientizar os magistrados a adotar, em suas decisões judiciais e comunicações institucionais, uma linguagem simples, de fácil entendimento para a população.
A linguagem do direito é técnica, mas obviamente é possível afastar exageros ao ponto de torná-la mais fluida e compreensível aos leigos, furando a bolha do “juridiquês”. É caminho para desmistificar as relações de poder e democratizar o acesso das pessoas aos seus direitos fundamentais.
O emprego desnecessário de jargões jurídicos e de expressões rebuscadas é tradição na área jurídica, prestando-se mais para enfeitar do que embasar tecnicamente as peças formadoras do processo. É prática “viciada” que se aprende desde a academia.
No entanto, o CNJ e o Poder Judiciário (na verdade, todos órgãos e pessoas que integram o “sistema legal”) têm de agir de maneira coerente em relação a esse movimento de descomplicar a linguagem.
Linguagem não abrange somente a fala, a escrita e o gestual. O vestir-se também é uma forma de linguagem e de poder.
Por harmonia entre o discurso e a prática, a vestimenta dos profissionais que atuam na área jurídica tem de seguir a linha de simplificação. Não adianta falar e escrever de forma singela e pavonear com roupas formais.
O colega advogado Fernando Paes, agora em abril, foi impedido de fazer sustentação oral telepresencial em sessão da 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Paraná porque não usava a beca, embora estivesse de terno. O prejudicado foi o cliente e o direito ao contraditório e à ampla defesa assegurado na Constituição Federal.
Ainda bem que a ministra Daniela Teixeira, do Superior Tribunal de Justiça, julgando habeas corpus, reconheceu o constrangimento ilegal, anulou a sessão e ordenou novo julgamento.
Magistrados e advogados, e muitos já fazem assim, quando atuando em sessões e audiências, sejam virtuais ou presenciais, devem se vestir sem ostentar poder, não havendo razão plausível, dentro de um discurso de desmistificação da linguagem e acesso ao Judiciário promovido pelo CNJ, de se exigir veste talar ou até mesmo terno e gravata (ainda mais em dias quentes). Data venia.













