O Clube-empresa e a coisificação do torcedor

Na Arena, presente na campanha que sagrou o Grêmio tri da Libertadores

A minha paixão pelo Tricolor dos Pampas é herança materna. A mãe escutava as transmissões esportivas por emissora de rádio, acabei por acompanhá-la nas jornadas e passei a me declarar gremista, isso em 1977. O argumento fundamental que me conquistou: minha mãe dizia que o Grêmio perdeu oito anos consecutivos o campeonato gaúcho porque era fraco – e era um imperativo moral apoiar os fracos!

Tudo se intensificou no dia 25 de setembro daquele ano, quando Corbo, Eurico, Victor Hugo, Cassiá, Oberdan, Ladinho, Tarciso, Tadeu, André Catimba, Iura e Éder tornaram o Grêmio campeão gaúcho, quebrando de forma heróica a hegemonia colorada. Foi histórico, o Grêmio venceu os quatro grenais até ali jogados! Vale lembrar que o Inter reunia uma seleção, sagrou-se bicampeão brasileiro em 75 e 76.

E hoje, 15 de setembro, o Grêmio comemora seus 116 anos! Felicitações ao Imortal e à sua alma, a torcida tricolor!

Mas nem tudo é comemoração. O avanço do neoliberalismo ameaça a essência do futebol nacional – a paixão sincera do torcedor -, que está por se transformar, de vez, em mera mercadoria e fonte de lucro.

Tramita no Congresso Nacional proposta idealizada pelo Rodrigo Maia, disciplinando a conversão dos clubes de futebol em empresas, i.e., deixam de ser associações. A migração, a princípio, não será obrigatória. Mas a ideia de transformar o clube em empresa de capital aberto e, com isso, viabilizar a emissão de ações na bolsa, vai jogar os grandes para lá.

Quando os gremistas cantam “até a pé nos iremos, para o que der e vier”, estão mais do que revelando uma paixão clubista. Trata-se de uma manifestação coletiva, exposição autêntica de um sentimento grupal, de pertença a uma associação de pessoas que confraternizam o Grêmio pelo que passaram juntos – vitórias e derrotas, e que de alguma forma se apossam da imaterialidade que sustenta o Grêmio, confundindo-se com ela.

Por tais razões, sempre vi com bons olhos os processos de democratização de muitos clubes brasileiros, permitindo que os “sócios-torcedores” participem diretamente da escolha dos seus dirigentes. No clube empresa, esse procedimento vai refluir. Não há democracia numa empresa, os donos mandam – e na proporção de suas cotas ou ações! As deliberações não são democráticas, o sufrágio é censitário.

A questão que se põe é a seguinte: não é legítimo que os torcedores, com seus sonhos e sua devoção – elementos que formam o aspecto cultural e popular do futebol -, sejam obrigados a torcer por uma empresa e por uma marca! O caminho do clube-empresa, por requalificar o torcedor como mero consumidor, rompe o sentimento de pertença. É a coisificação do torcedor, que passa a ser tomado somente como uma fonte de lucro para uma empresa de futebol.

Tristemente, na proposta de clube-empresa os torcedores passarão a figurar como meros objetos de geração de lucros para investidores, os novos donos dos clubes de futebol. Aliás, quem serão esses donos, um mafioso russo, um sheik milionário ou um banqueiro afortunado?

Claro que há corrupção, falta de transparência e concentração de poder no atual modelo. O torcedor deveria ter mais acesso, interferir com mais vigor nas decisões políticas do clube. Mas a matriz proposta não apresenta qualquer garantia de aumento da transparência e do controle social, além de privatizar de vez os clubes e coisificar o torcedor.

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